Quando a Confiança é a Melhor Garantia: O Percurso de uma Mulher na Intermediação de Crédito
A presença das mulheres na intermediação de crédito já não é uma tendência: é uma realidade que está a transformar o setor.
Entre conhecimento, proximidade e capacidade de decisão, cada vez mais mulheres assumem um papel relevante numa atividade onde a confiança é determinante. À Business Voice, Miriam Bertão, Gestora de Crédito na Twinkloo, partilha a sua visão sobre o percurso das mulheres na intermediação de crédito, os desafios que continuam a existir e a importância de afirmar uma liderança assente na competência, na preparação e na capacidade de criar relações.
Uma conversa sobre a força feminina num setor em transformação, onde liderar significa também abrir portas, criar oportunidades e contribuir para construir um futuro com maior equilíbrio e representatividade.
O que significa, para si, ser mulher e construir uma carreira num setor como o da Intermediação de Crédito, onde conhecimento, negociação, confiança e capacidade de decisão são fundamentais?
Para mim, significa sobretudo construir o meu espaço através do trabalho que faço.
Entrei nesta área numa fase de mudança profissional e percebi rapidamente que a intermediação de crédito é muito mais do que fazer contas ou enviar processos para os bancos. É preciso estudar, saber ouvir, negociar, explicar e transmitir segurança, porque estamos muitas vezes a acompanhar uma das maiores decisões financeiras da vida de uma pessoa.
Hoje acompanho clientes desde a análise inicial da viabilidade até à escritura, comparando soluções junto de diferentes instituições e ajudando cada pessoa a perceber não apenas quanto pode financiar, mas qual é a solução que faz sentido para a sua vida. Trabalho também com emigrantes, estrangeiros e pessoas que chegam até mim sem saber por onde começar.
Muitas vezes, a primeira conversa serve simplesmente para colocar os números em cima da mesa e perceber se aquele projeto é possível.
Ser mulher faz parte de quem sou, mas quero que as pessoas confiem em mim pelo meu conhecimento e pela forma como acompanho cada processo.
Ao longo do seu percurso profissional, já sentiu que, por ser mulher, teve de provar mais vezes a sua competência, conhecimento ou autoridade para conquistar o mesmo reconhecimento?
Sinceramente, não senti isso de forma muito marcada por ser mulher. Talvez tenha sentido mais necessidade de provar a mim própria que era capaz, sobretudo porque entrei numa área nova e queria fazer as coisas bem. Estudei muito, continuo a estudar e aprendi rapidamente que esta é uma profissão que exige atualização constante.
Quando uma questão exige confirmação, prefiro validar a informação antes de responder. Para mim, rigor também é saber quando devemos confirmar. A confiança vai-se conquistando processo a processo.
A empatia, capacidade de ouvir e criação de relações de confiança são frequentemente associadas às competências femininas. Considera que estas características podem constituir uma verdadeira vantagem competitiva na Intermediação de Crédito?
Sim, embora eu não considere que sejam características exclusivamente femininas.
Saber ouvir faz uma diferença enorme nesta profissão. Muitas vezes uma pessoa chega até nós a perguntar “quanto é que o banco me empresta?”, mas quando começamos a conversar percebemos que a verdadeira preocupação é outra. Pode ser medo de não conseguir comprar casa, receio de assumir uma prestação demasiado alta ou simplesmente não saber por onde começar.
Para mim, o objetivo nunca é conseguir o maior financiamento possível. É encontrar uma solução que faça sentido para aquela pessoa, porque o crédito deve caber na vida dela e não o contrário.
Às vezes, o melhor trabalho que podemos fazer é explicar que determinado valor não é confortável, mesmo que exista possibilidade de financiamento. O objetivo não é apenas conseguir uma aprovação. É ajudar a tomar uma boa decisão.
Para mim, a diferença está em juntar proximidade e conhecimento técnico. Uma coisa sem a outra não chega.
Num setor cada vez mais digital e tecnológico, onde a Inteligência Artificial poderá assumir uma parte crescente dos processos, que competências humanas continuarão a distinguir uma excelente Intermediária de Crédito?
A tecnologia vai ajudar muito esta profissão e vejo isso como algo positivo. Pode tornar processos mais rápidos, organizar informação e apoiar a análise.
Mas a experiência, a atenção ao detalhe e o sentido crítico continuam a ser fundamentais. Há documentação que, à primeira vista, parece normal, mas onde pequenas incoerências podem levantar dúvidas. Nem tudo é detetado automaticamente.
E depois há a parte humana. Quando um processo se complica, o cliente quer perceber o que aconteceu, que alternativas existem e sentir que há alguém do outro lado. A tecnologia pode tornar-nos melhores e mais rápidos. Mas não substitui a relação de confiança.
Considera que as mulheres já conquistaram o espaço que merecem na Intermediação de Crédito ou ainda existem barreiras visíveis ou invisíveis que condicionam o seu crescimento e acesso a posições de liderança?
Hoje já vemos muitas mulheres muito boas nesta área, o que é ótimo. Mas acho que ainda podemos ver mais mulheres a criar os seus próprios projetos, a liderar equipas e, sobretudo, a acreditar que também podem ocupar esse espaço.
Também existem barreiras menos visíveis, como a exigência de querermos estar completamente preparadas antes de avançar. Muitas vezes esperamos pela certeza absoluta quando, na realidade, o crescimento também acontece enquanto fazemos o caminho.
No meu próprio percurso tenho aprendido isso: há momentos em que temos de avançar mesmo sem sentir que temos todas as respostas. Porque, para chegarmos ao destino, temos de estar em movimento.
Num setor onde confiança e credibilidade podem determinar uma decisão financeira, o que distingue, na sua opinião, uma profissional que simplesmente exerce a profissão de uma mulher que consegue realmente deixar uma marca na Intermediação de Crédito?
Para mim, é quando as coisas deixam de correr como planeado que se percebe realmente quem está do outro lado.
Quando um processo é aprovado rapidamente e tudo corre bem, é relativamente fácil acompanhar. A verdadeira diferença aparece quando há um problema, quando o banco pede mais documentação, quando uma solução deixa de ser possível ou quando temos de procurar alternativas.
O meu trabalho não termina quando recebemos uma aprovação. Há propostas para comparar, condições para perceber, avaliação, documentação, escritura e, muitas vezes, imprevistos pelo caminho. É aí que quero que o cliente sinta que não está sozinho.
Mesmo quando ainda não tenho uma solução, prefiro dizer ao cliente “ainda estou a tratar disto” do que deixá-lo sem resposta.
Se daqui a uns anos alguém que trabalhou comigo disser simplesmente “a Miriam esteve sempre lá”, para mim isso já significa muito.
Que conselho deixaria a uma jovem mulher que está hoje a entrar na Intermediação de Crédito e que sonha, não apenas em construir uma carreira, mas em tornar-se uma referência no setor?
Diria para estudar muito, mas para não esperar pelo dia em que vai sentir que sabe tudo, porque esse dia provavelmente não chega.
Saber fazer perguntas, ouvir quem tem mais experiência e confirmar sempre que uma situação o exige.
E depois tentaria não copiar demasiado aquilo que já existe. Podemos aprender muito com outras pessoas sem tentar ser iguais a elas. Acredito que uma referência se constrói com tempo, conhecimento e consistência. É quando as pessoas começam a confiar no nosso nome, voltam a procurar-nos e nos recomendam que percebemos que estamos a construir alguma coisa.
Também acredito que nós, mulheres, devíamos apoiar-nos mais umas às outras. Partilhar conhecimento, abrir portas e perceber que ajudar outra mulher a crescer não tira nada ao nosso próprio caminho.
E há uma coisa que tenho aprendido no meu percurso: muitas vezes não precisamos de estar completamente prontas para dar o próximo passo. Crescemos enquanto o damos. O mais importante é não desistir pelo caminho.