Liderar com Propósito e Resiliência no Setor da Cooperação
Na edição mais recente da Business Voice, Susana Damasceno, Fundadora e Presidente da Direção da AIDGLOBAL – ONGD, partilhou a sua visão e experiência enquanto mulher líder no setor da solidariedade e da cooperação para o desenvolvimento. Com um percurso marcado pela dedicação às causas sociais e pela promoção de uma cidadania mais ativa e inclusiva, Susana reflete sobre os desafios estruturais e culturais que ainda hoje se colocam às mulheres em cargos de liderança, especialmente em organizações sem fins lucrativos.
Durante a entrevista, destacou a importância de uma liderança humanizada, movida por valores e propósito, mas também firme na luta por igualdade de oportunidades. Enquanto mulher, enfrentou múltiplos desafios: desde o financiamento instável das ONGD, passando pela dificuldade em afirmar autoridade num setor muitas vezes dominado por visões tradicionalistas, até à conciliação entre vida profissional e pessoal – realidade amplamente sentida por mulheres em posições de topo. Esta conversa é um testemunho inspirador de como o género não deve ser uma barreira, mas sim uma força que enriquece as organizações e a sociedade.
Que significado tem, para si, liderar uma organização como a AIDGLOBAL, que atua em contextos tão diversos e complexos, e como se mantém fiel à missão fundadora da ONGD ao longo do tempo?
Tem um significado profundo de realização pessoal e profissional que, quando se fundem, são suficientes para gerar a motivação necessária, não só para ultrapassar as constantes dificuldades e exigências, que enfrentamos no sector não lucrativo, como ainda manter o foco e a clarividência, quando tudo parece estar perdido, nunca esquecendo a razão por que iniciámos esta caminhada: içar a bandeira da Educação.
Quais são os principais desafios que enfrenta enquanto líder de uma ONGD sem fins lucrativos, e como gere a tensão entre a escassez de recursos e a ambição de gerar impacto social e educativo duradouro?
Enquanto líder, enfrento vários desafios que atingem o terceiro sector, nomeadamente Organizações com a dimensão da AIDGLOBAL: a mobilidade de pessoas, a falta de conhecimento técnico sobre o sector, baixos salários e uma pressão constante de cumprir com os cronogramas das atividades dos projetos. E não menos importante: gerir um complexo e exigente processo de prestação de contas, que obriga a uma disciplina, rigor e uma dedicação de tempo relevantes. Este é o lado “prosaico” do nosso trabalho, que não podemos descurar, mas que também não nos podemos deixar dominar por ele. É preciso sonhar, sempre, por uma Humanidade que se honra a si mesma e, para isso, é preciso manter viva a ambição de gerar impacto, para alcançarmos o bem-comum, tantas vezes esquecido. Na AIDGLOBAL e em tantas outras Associações, fazemos “coisas bonitas”, mas acima de tudo levamos a cabo um trabalho fundamental, em prol de toda a sociedade.
Na sua perspetiva, que qualidades ou competências são indispensáveis a uma liderança eficaz numa ONGD, especialmente em contextos de desenvolvimento, cooperação internacional e inclusão social?
Coragem para enfrentar o caminho quando ele fica sombrio, carisma para soltar uma gargalhada quando tudo fica sério de mais, coerência entre o que se deseja fazer e o que se é capaz de fazer, consistência nas escollhas que traçam a cultura institucional e as incontornáveis capacidades emocionais e técnicas que permitem formar/conduzir os que chegam ao sector e os que deixam o sector, muitas vezes desgastados por uma vida de extrema dedicação. Trabalhar no sector da Cooperação é estimulante, aprende-se muito sobre o mundo, mas, muitas vezes, torna-se extenuante. E, por fim, nunca perder a fé na Humanidade. No dia que isso acontecer, não é possível estabelecer mais laços.
Como inspira e motiva equipas que trabalham frequentemente em ambientes exigentes, com limitações orçamentais e realidades sociais frágeis, mas onde a paixão pela causa é muitas vezes o maior motor?
Acho que é a minha paixão pelo que faço e a minha dedicação que, provavelmente, mais inspira quem veste a camisola da AIDGLOBAL. São 20 anos a gerir um pequena Organização em dimensão, mas uma grande Organização em termos de resultados e impacto já alcançados que só é possível com muito esforço, dedicação e capacidade de trabalho de todos nós: minha e das equipas que dirijo.
Num sector onde a confiança pública é essencial, como garante a transparência, a ética e a prestação de contas — tanto perante financiadores como perante as comunidades beneficiárias?
Desde sempre que, na AIDGLOBAL, temos assumido a transparência e a prestação de contas como dois princípios que norteiam a gestão da Organização. Por esta razão, as contas estão publicadas no nosso website e, todos os anos, uma empresa de auditoria assegura a conformidade das nossas contas. Para além disso, gerir corretamente os dinheiros públicos, investir os donativos angariados nos que mais precisam de apoio e não haver lugar ao desperdício ou ao uso indevido de um euro que seja tem sido um ponto de honra para a Direção da AIDGLOBAL.
A AIDGLOBAL trabalha com parceiros institucionais, educativos e comunitários, tanto em Portugal como em Moçambique. Que papel tem a liderança na construção de pontes, no diálogo intercultural e na gestão de parcerias estratégicas?
A liderança é fundamental! E é tão diversa. É isso que torna as relações humanas tão surpreendentes e estimulantes, ainda mais num contexto intercultural, como naquele em que nos posicionamos. A título de exemplo: o Administrador do Distrito do Chibuto, em Moçambique, distrito onde atuamos, tem um estilo de liderança muito peculiar e que foi, desde logo, importante perceber para que se chegasse a um entendimento político e, simultanemente, profícuo, permitindo a implementação de um projeto que exigiu um trabalho de base comunitária. A liderança deste homem foi fundamental para envolver chefes de bairro, régulos, líderes religiosos, mulheres e mediar os interesses de todas as partes. Em Portugal, temos tido as Direções das Escolas onde intervimos como grandes aliadas. Sem a sua liderança, muito do trabalho promovido no âmbito da Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global (EDCG) não teria sido possível. As lideranças fazem-se com alianças.
Como conjuga a visão estratégica de longo prazo com a necessidade de adaptação constante a mudanças sociais, políticas e económicas — quer nos países de intervenção, quer no próprio setor da cooperação?
Ler e compreender o mundo, a sua trajetória e as tendências sociais, políticas e económicas é essencial bem como é vital ler muito e estar rodeada de gente com sentido crítico. E não é nas redes sociais que encontramos essas pessoas. É preciso procurá-las, descobrir os novos “pensatempos”, como diz o Mia Couto, nunca descuidando os mais antigos que foram visionários e que nos alertaram para o mundo que enfrentamos hoje. A instabilidade, que se vive, por exemplo, em Moçambique, em Angola e noutros países africanos, precisa de ser compreendida à luz da atualidade. São países em que a juventude se ergue como maioria absoluta. É preciso responder aos seus anseios, é preciso que não perca a fé no futuro. E para isso, é preciso Educação de Qualidade, suscetível de os capacitar para as suas próprias lideranças. A AIDGLOBAL responde a esta demanda quando cria bibliotecas, infotecas e Escolinhas, em Moçambique.
O que mais a realiza, pessoal e profissionalmente, no exercício da liderança da AIDGLOBAL, e que mensagem deixaria a quem sonha criar ou liderar uma ONGD que promova uma cidadania ativa e um mundo mais justo?
O que mais me realiza são os sorrisos das crianças portuguesas e moçambicanas a quem lemos a mesma história, nas suas línguas maternas, permitindo que cada uma delas sonhe à dimensão da sua criatividade.
Reconheço e valorizo o poder transformador da leitura. Temos sido muito felizes na criação da linha editorial de literatura infantil billingue (Português – XiChangana) – “Livros para Começar”. Tem sido um dos projetos que maior satisfação nos tem dado, porque é um balão de oxigénio nos nossos dias, corridos e exigentes. Tem permitido à mulher que sou sonhar e ver a obra a nascer… tão bem acompanhada por uma equipa de gente talentosa, toda ela moçambicana. És este tipo de projetos que eu gosto de liderar.
A minha mensagem para quem tem o impulso de fundar uma Organização sem fins lucrativos é a de conduzir, com a sabedoria que vem do coração, realizar um trabalho enriquecedor, que possa ser, simultaneamente, desafiante, por vezes desgastante, mas sempre gratificante.