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"Viver mais Plenamente, com maior Liberdade, Vitalidade e Prazer em existir"


Nem todas as batalhas são visíveis. Há pensamentos que pesam em silêncio, emoções que não encontram palavras e momentos em que parar para cuidar de nós exige mais coragem do que continuar. Falar de saúde mental é, por isso, abrir espaço à vulnerabilidade, sem julgamentos, e reconhecer que o bem-estar psicológico merece tempo, atenção e acompanhamento especializado.
Foi também com esta visão que nasceu a My Therapist, fundada por Paula Campos, Diretora Clínica, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica, com o propósito de aproximar a terapia de quem precisa dela, através de um acompanhamento online personalizado, flexível e confidencial. Em entrevista à Business Voice, Paula Campos reflete sobre os desafios emocionais da sociedade atual e a importância de tornar o acesso à saúde mental mais próximo, humano e ajustado à realidade de cada pessoa.

Fala-se cada vez mais de saúde mental, mas muitas pessoas continuam a sofrer em silêncio. A que sinais devemos estar atentos e o que nos impede de procurar ajuda?
Diria que devemos estar particularmente atentos aos excessos e às faltas. Onde há excesso, há frequentemente um desequilíbrio, e muitas vezes esse excesso esconde uma falta. Pensemos, por exemplo, numa criança excessivamente bem-comportada, que procura fazer tudo bem, corresponder a todas as expectativas, não desiludir ninguém. É provável que esteja a fazer um enorme esforço psicológico para corresponder a um ideal, muitas vezes parental. E isso pode significar que está a aprender a viver mais em função daquilo que os outros esperam dela do que das suas próprias necessidades, desejos e capacidades.
No extremo oposto, uma criança ou um adulto excessivamente impulsivo ou agressivo pode estar a expressar, através do comportamento, estados emocionais que não consegue reconhecer, compreender ou regular. Em ambos os casos, o comportamento pode ser a expressão visível de um sofrimento que não encontra outra forma de se manifestar.
Mas há também sinais menos evidentes: sentimentos persistentes de vazio, falta de vitalidade, perda de entusiasmo pela vida, ansiedade excessiva ou uma tristeza da qual não conseguimos sair. Importa distinguir o sofrimento que faz parte da vida, daquele que nos aprisiona. A capacidade de nos entristecermos, de vivermos a frustração e de sentirmos as nossas limitações é, na verdade, um sinal de saúde mental. O problema não é sentirmos tristeza, mas ficarmos afundados nela.
Quanto ao que nos impede de procurar ajuda, há vários fatores. Desde logo, nem sempre sabemos reconhecer o nosso próprio sofrimento. Existem mecanismos de defesa psíquicos que nos protegem de experiências emocionais demasiado dolorosas, mas que também nos afastam de partes de nós próprios. Também, muitas vezes vivemos num conflito entre aquilo que sentimos e aquilo que achamos que deveríamos sentir. Depois, há a vergonha e os preconceitos culturais. Nos homens, particularmente, persiste uma associação entre vulnerabilidade e fraqueza, que dificulta o pedido de ajuda.
Gostaria ainda de sublinhar que a psicoterapia não se destina apenas a tratar perturbações graves. Nem sequer se destina exclusivamente a tratar problemas. É também uma oportunidade para ampliarmos a experiência de sermos nós próprios, compreendermos os caminhos pelos quais nos fomos afastando de quem somos e recuperarmos a possibilidade de viver de acordo com os nossos desejos, capacidades e limitações, de sermos íntimos de nós próprios, tema que desenvolvi no meu livro “Sobre a Ambivalência: Feminino, Materno e Complexidades da Vida Mental”. E, sobretudo, de encontrarmos mais prazer em existir.

Que características da sociedade atual considera mais preocupantes para a saúde mental?
Penso que vivemos numa sociedade um pouco confusa. O desenvolvimento económico e social das últimas décadas trouxe-nos conquistas extraordinárias, mas também alimentou a ilusão de que a felicidade estaria ao nosso alcance através daquilo que conseguimos obter ou conquistar, sejam bens materiais, realizações pessoais ou até relações afetivas. Como se a felicidade dependesse sempre de algo que vem de fora. A própria ideia de que temos de ser felizes tornou-se uma espécie de imperativo contemporâneo.
Naturalmente, as condições económicas e a qualidade das relações são fundamentais para o nosso bem-estar, mas não podem constituir o seu único alicerce. Esse alicerce tem de ser construído no nosso mundo interno, através de um processo complexo de desenvolvimento psíquico, profundamente marcado pelas experiências relacionais que vivemos desde a infância, marcado pela integração do bom e do mau, por lutos, pelo desenvolvimento de capacidade de lidar com tudo o que existe dentro de nós e também pelo desenvolvimento de uma relação de amor connosco próprios.
Hoje procuramos demasiadas vezes fora de nós aquilo que precisamos de desenvolver dentro de nós. Vivemos numa sociedade muito centrada na imagem, na visibilidade e na validação externa. Basta pensar no impacto emocional que pode ter uma publicação nas redes sociais receber poucos gostos. Confundimos o reconhecimento dos outros com o nosso próprio valor. E entramos numa procura interminável: se vinte gostos não chegam, precisamos de cinquenta. Mas a satisfação é sempre passageira, porque nada se transformou verdadeiramente dentro de nós.
Há ainda outra questão que me preocupa profundamente: a velocidade. Vivemos num mundo em que tudo se tornou mais rápido e a inteligência artificial está a acelerar extraordinariamente esse processo. O intervalo entre o desejo e a sua concretização é cada vez menor. Mas a vida mental não acompanha esta velocidade. A transformação psíquica é lenta. Precisamos de tempo para compreender o que sentimos, elaborar as nossas experiências e desenvolver recursos internos. 
Preocupa-me também que os interesses económicos se sobreponham cada vez mais à proteção da saúde mental. Veja-se a normalização da publicidade ao jogo, que apresenta como inofensiva uma atividade com elevado potencial aditivo e destrutivo. Estamos a alimentar uma cultura do imediato, do fácil e da promessa ilusória de satisfação.
Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja precisamente este: deixarmos de procurar incessantemente fora de nós a solução para o nosso mal-estar e recuperarmos o tempo e o espaço necessários para construir uma relação mais profunda connosco próprios.

O que deveria mudar para melhorar o acesso aos cuidados de saúde mental em Portugal?
Portugal tem um problema gravíssimo de acesso aos cuidados de saúde mental. Em 2021, segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, existia apenas um psicólogo por cada 40 mil utentes nos cuidados de saúde primários, quando o rácio recomendado era de um para cinco mil. Apesar de alguns progressos, a insuficiência de profissionais continua a ser uma realidade.
Mas há uma questão que me parece fundamental: não basta contratar mais psicólogos. É preciso perguntar que formação têm estes profissionais e em que condições trabalham. A psicoterapia é uma área especializada, reconhecida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, que exige formação específica e aprofundada. Não podemos confundir a disponibilização de consultas de psicologia com o acesso a um verdadeiro processo psicoterapêutico.
E depois há a continuidade. Que trabalho transformador podemos esperar de um psicólogo responsável por centenas ou milhares de utentes, sem condições para acompanhar regularmente aqueles que precisam? Uma consulta mensal pode oferecer algum apoio, mas é frequentemente insuficiente para um trabalho psicoterapêutico aprofundado.
Precisamos de mais psicólogos, sem dúvida. Mas precisamos também de profissionais qualificados, de condições de trabalho adequadas e de tempo para estabelecer relações terapêuticas consistentes. Porque o objetivo não pode ser apenas atender mais pessoas. Tem de ser proporcionar cuidados capazes de produzir mudanças reais e duradouras na vida das pessoas.
Quando o acesso a psicoterapia continuada e de qualidade depende da capacidade económica para recorrer ao privado, estamos perante uma questão de justiça social.

Que mensagem deixaria a quem sofre e continua a adiar o pedido de ajuda?
Gostaria de deixar uma mensagem de esperança. Por mais difíceis que tenham sido as nossas experiências e por mais tempo que tenhamos vivido em sofrimento, existe sempre a possibilidade de transformação.
Não estamos condenados a repetir indefinidamente a nossa história. Podemos construir novas formas de nos relacionarmos connosco, com os outros e com a vida. Talvez essa seja uma das maiores possibilidades da psicoterapia: não apenas sofrer menos, mas viver mais plenamente, com maior liberdade, vitalidade e prazer em existir.


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