“Trazer a BIOTA até aqui é algo de que me Orgulho muito”
No Dia Internacional da Mulher, falamos de liderança. Mas também falamos de território. De futuro. E de coragem para enfrentar riscos que muitos ainda insistem em ignorar. Para isso, conversamos com Patrícia Rodrigues, CEO da Biota – Estudos e Divulgação em Ambiente, que nos deu a sua visão sobre diversos temas. Numa área onde a ciência, a estratégia e a ação precisam de andar de mãos dadas, a sua liderança afirma-se como uma voz firme, técnica e mobilizadora. O alerta é claro — e urgente. As espécies exóticas invasoras continuam a expandir-se, a provocar impactos ambientais e económicos profundos e, ainda assim, permanecem fora do radar de muitos decisores. É contra essa inércia que surge o BIOTA Invasoras Summit, que terá lugar no Taguspark, em Oeiras, nos dias 27 e 28 de maio. “Espero que o BIOTA Invasoras Summit coloque as espécies exóticas invasoras no radar de decisores e entidades que ainda não estão sensibilizados para a dimensão do risco”, afirma a CEO da empresa.
Mais do que um encontro técnico, o Summit quer ser um ponto de viragem. Um espaço onde ciência, empresas, administração pública e sociedade civil se cruzam para transformar conhecimento em compromisso e compromisso em ação.
Num setor historicamente dominado por vozes masculinas, Patrícia Rodrigues representa uma geração de líderes que não pedem espaço — criam-no. Com visão estratégica e capacidade de execução, prova que a sustentabilidade não é apenas uma causa: é uma responsabilidade coletiva que exige liderança determinada. Nesta entrevista, falamos de risco, de impacto, de políticas públicas, de ambição e do papel das mulheres na construção de soluções ambientais robustas. Porque proteger o território também é um ato de liderança. E, hoje, essa liderança tem voz feminina.
Quem é a empresa Biota – Estudos e Divulgação em Ambiente que lidera e em que áreas específicas atua?
A Biota é uma empresa portuguesa de consultoria ambiental, fundada em 2008, especializada em biodiversidade. Assenta numa equipa permanente com forte diversidade geracional e numa rede nacional e internacional de especialistas. Ao longo do seu percurso, participou em mais de 550 projetos distribuídos por 10 países, com maior expressão em Portugal, Angola e Moçambique. A Biota trabalha na interface entre ciência, exigência legal e realidade operacional, conciliando a proteção de ecossistemas terrestres, aquáticos e marinhos com as atividades humanas e os requisitos técnicos de cada projeto. Desenvolve a componente de biodiversidade em estudos de impacte ambiental, processos de licenciamento e de certificação, monitorização ecológica, avaliação e gestão de espécies exóticas invasoras, restauro ecológico, planos de gestão de biodiversidade e ações de comunicação e literacia ambiental, apoiando entidades públicas e privadas em setores como por exemplo energias renováveis, petróleo e gás, exploração mineira, infraestruturas e conservação. Em Portugal, um dos seus fatores diferenciadores é a diversidade e complexidade de projetos que realiza no domínio dos ecossistemas aquáticos, integrando conhecimento técnico e científico aplicado com soluções ajustadas a cada realidade. A sua atuação é guiada por competência técnica e rigor científico, mas também por integridade, colaboração e responsabilidade, promovendo uma cultura de proatividade, criatividade, bem-estar, propósito e um compromisso diário com a sustentabilidade.
O tema das espécies exóticas invasoras aquáticas é do vosso especial interesse. Pode dar exemplos do impacte destas espécies em Portugal?
Em Portugal, a nível económico, as espécies invasoras aquáticas prejudicam gravemente setores como a agricultura, a produção de energia, a pesca e o abastecimento de água. Por exemplo, o jacinto-de-água forma tapetes densos à superfície da água, o que entope canais de rega e prejudica a navegação em rios. Outro exemplo é o peixe-gato-europeu que ameaça as espécies nativas e a pesca. O lagostim-de-rio americano provoca elevados prejuízos nos arrozais, enquanto a ameijoa-asiática acumula-se em grandes quantidades em depósitos de abastecimentos de água obrigando a esvaziamento e limpezas regulares. Para além disso, estas espécies têm um impacto ecológico muito significativo, levando à extinção local de espécies nativas e alterações profundas dos ecossistemas.
Por vezes, descreve-se este como um problema “silencioso”. Acha que continuamos a subestimar riscos no nosso país?
Sem dúvida! Estima-se que haja 14 novas introduções bem-sucedidas de espécies exóticas invasoras aquáticas por década em Portugal, o que significa que o impacte destas espécies é um desafio económico e ambiental crescente. Para dar outro exemplo, o mexilhão-zebra é uma espécie invasora com uma grande capacidade de colonização de superfícies. Já está em Espanha onde danifica turbinas, condutas, canais, grelhas e hélices e chegará seguramente a Portugal em breve.
Se tivesse de sintetizar a gravidade do problema para um decisor político em 60 segundos, qual seria o argumento central?
Eu focaria o custo económico. Todos sabemos que é melhor e muito mais barato prevenir do que remediar, mas muitas vezes isso não é feito. No mundo, as espécies exóticas invasoras causam prejuízos atuais de 423 mil milhões USD por ano, equivalente a 1,3 vezes o PIB português em 2025. Em Portugal, só para gerir alguns dos problemas causados pelo jacinto-de-água, investimos mais de 883 mil euros entre 2023 e 2025.
O BIOTA Invasoras SUMMIT surge neste contexto como um evento que pretende ser diferente. O que o distingue das conferências científicas tradicionais?
O BIOTA Invasoras Summit distingue-se das conferências científicas tradicionais porque nasce com um objetivo claro de acelerar ação e decisão, e não apenas discutir o “estado da arte”. É um encontro desenhado para juntar, na mesma sala, os principais stakeholders — empresas, academia, administração pública, reguladores e outras entidades com responsabilidade e capacidade de implementação — e orientar o debate para impactos económicos, risco operacional e soluções concretas. A programação está estruturada em torno de três casos de estudo reais e particularmente relevantes para Portugal (mexilhão-zebra, peixe-gato-europeu e jacinto-de-água), usados como âncoras para transformar conhecimento em medidas aplicáveis, com prioridades, compromissos e caminhos de execução. Além disso, o evento está pensado em dois momentos complementares: um primeiro dia mais focado no debate estratégico e na articulação entre setores, e um segundo dia de caráter mais técnico, centrado em workshops práticos e orientados para soluções — desde prevenção e deteção precoce até métodos de gestão e controlo. Ao longo dos dois dias, existe ainda uma área de exposição que permite a presença de entidades de diferentes setores, criando um espaço consistente de networking e colaboração. Para potenciar envolvimento e retenção de mensagens-chave, o Summit incorpora também uma componente imersiva e sensorial de som, imagem e luz, tornando a experiência mais marcante e mobilizadora.
Portugal tem conhecimento científico e enquadramento legal nesta matéria. Acha que este evento pode estimular a transição do conhecimento para a ação?
Sim, o Biota Invasoras Summit pretende contribuir para passarmos do conhecimento técnico para decisões práticas que possam lidar adequadamente com estas ameaças. Queremos contribuir para mobilizar investimentos, criar sinergias entre diversos atores e acelerar respostas coordenadas no país. Há alguns problemas que ainda podemos evitar, por exemplo, fazendo monitorização ambiental aliada à implementação de planos de ação para prevenir a entrada de novas espécies.
Falamos frequentemente de prevenção e de custo de inação. Acha que o tecido empresarial português já reconhece o impacto financeiro das invasoras aquáticas ou ainda há um défice de consciência?
Acho que ainda não integrou de forma consistente o impacto financeiro das espécies exóticas invasoras aquáticas nas suas decisões estratégicas. Alguns setores mais expostos — como abastecimento de água, energia hídrica, agricultura ou aquacultura — já reconhecem problemas associados a manutenção, perda de produtividade e risco operacional. Fora desses contextos específicos, o tema continua a ser percecionado como ambiental e não como económico. Para além disso, há uma brecha enorme entre o mundo empresarial e o setor académico em Portugal, o que impede de forma efetiva a incorporação do conhecimento e boas práticas disponíveis no mercado. A avaliação dos custos associados à inação, dos prejuízos causados por interrupções operacionais e as necessidades de modelação e cobertura de risco, são temas para os quais as empresas, a banca e os seguros devem estar cada vez mais atentas.
O BIOTA INVASORAS SUMMIT dirige-se também a comunicadores e media. Que papel atribui à comunicação na forma como a sociedade percebe — ou ignora — este problema?
A comunicação é fundamental no sentido em que este é um problema transversal que afeta toda a sociedade, mesmo que isso não seja percetível. Por exemplo, os prejuízos causados pelo mexilhão-zebra nas hidroeléctricas terão de ser suportados pelas empresas, que poderão repercuti-los na fatura da luz dos consumidores, ou pela administração publica, consumindo impostos que todos pagamos. Por outro lado, são os nossos comportamentos que, quase sempre sem termos consciência disso, contribuem para a expansão destas espécies, por exemplo, ao levar material de pesca ou embarcações de lazer e desporto entre rios sem desinfetar. É fundamental que tudo isto seja comunicado para que todos possam atuar de forma informada, e contribuir para a solução.
O evento realiza-se no Taguspark, em Oeiras. Este território enfrenta desafios concretos relacionados com espécies invasoras?
Tal como todas as áreas densamente povoadas, Oeiras e a região metropolitana de Lisboa sofre introdução de espécies invasoras muito frequentemente, e por vezes espécies invulgares como é o caso da rã-de-unhas-africana (Xenopus laevis). Nos parques e zonas urbanas são abundantes as espécies invasoras, desde tartarugas e peixes que as pessoas já não querem em casa, até plantas usadas para fins ornamentais ou outros, passando pelo vistoso periquito-de-colar que está bem estabelecido e em expansão em Portugal, sendo já muito abundante na Grande Lisboa, com dormitórios que podem juntar centenas de aves. Todas estas espécies afetam as espécies nativas, exigem gastos no seu controlo e podem até implicar problemas de saúde publica.
Que impacto espera que o BIOTA Invasoras SUMMIT tenha na agenda nacional?
Espero que o BIOTA Invasoras Summit coloque as espécies exóticas invasoras no radar de decisores e entidades que ainda não estão sensibilizados para a dimensão do risco, deixando claro que este não é só um problema ecológico, mas também económico e operacional. O objetivo é criar pressão positiva para acelerar a resposta política, nomeadamente dando urgência à aprovação, em Resolução do Conselho de Ministros, de Planos de Ação já elaborados e que aguardam decisão. Ao mesmo tempo, o Summit pretende contribuir para uma cooperação intersetorial efetiva, porque só uma atuação coordenada, de cima para baixo e com responsabilidades claras, permitirá travar novas entradas e gerir as invasoras já estabelecidas.
No Dia Internacional da Mulher, que significado tem para si liderar uma empresa num setor altamente técnico?
Para mim, tem um significado muito concreto: mostrar que competência técnica e liderança não têm género — têm trabalho, atitude e responsabilidade. Liderar uma empresa num setor intensivo em conhecimento, onde a especialização técnica é um ativo crítico, é simultaneamente uma oportunidade e um compromisso: elevar a fasquia do rigor, criar condições para equipas crescerem e garantir que o impacto no terreno é real e útil para quem decide. E hoje essa liderança tem uma exigência acrescida: a biodiversidade já não pode ser tratada como uma “caixa” isolada. A complexidade crescente dos desafios ambientais, a velocidade a que surgem novas ferramentas e a pressão para resultados mensuráveis obrigam uma consultora a ir além da excelência biológica, capacitando continuamente os seus técnicos e integrando novas competências — da tecnologia e análise de dados à comunicação, à economia e à gestão do risco. Para mim, liderar é também construir pontes: envolver a equipa na identificação de oportunidades, promover parcerias e manter a organização criativa e ágil, com pensamento estratégico permanente, para responder com qualidade a problemas que mudam todos os dias.
Ao longo do seu percurso como CEO, ser mulher influenciou o seu trajeto enquanto líder? De que forma?
Influenciou, sim — mas não sei se por ser mulher, ou por ser a mulher que sou. Como qualquer pessoa, também tenho medos: o julgamento, a exigência, a responsabilidade. E, ao longo do tempo, percebi que por vezes usamos ‘máscaras’ para continuar a avançar — e eu não fui/sou exceção. Trazer a BIOTA até aqui é algo de que me orgulho muito, mas tenho consciência de que, quando largar o medo do julgamento, vou conseguir revelar ainda mais do potencial que eu e a BIOTA temos para dar. O BIOTA Invasoras SUMMIT é um passo grande nesse sentido: sair da zona de conforto, ocupar um lugar mais visível e transformar propósito em ação concreta, com impacto real. No fim, liderança não é perfeição — é coragem consistente, qualidade e a capacidade de reunir pessoas para fazer acontecer. E isso está gravado na parede do nosso escritório: “Se queres ir rápido vai sozinho; se queres ir longe vai acompanhado.” Provérbio Africano
Que mensagem deixaria a jovens mulheres que querem liderar projetos com propósito, mas hesitam em ocupar espaços de decisão?
Diria duas coisas. Primeiro: não esperem sentir-se “100% prontas” — isso não vai acontecer, a confiança constrói-se no caminho, com preparação e ação. Segundo: invistam na competência técnica, no autoconhecimento, aprendam a comunicar com clareza e procurem mentoras, aliados e redes que vos desafiem e apoiem. O propósito é importante, mas liderança exige também coragem para decidir, negociar e assumir responsabilidades. E o setor precisa de mais mulheres nesses lugares — não por simbolismo, mas porque trazem visão, resiliência e capacidade de execução.