“Que o papel das Mulheres seja de transformação constante do setor imobiliário”
Liderar é muito mais do que alcançar resultados: é criar relações, inspirar confiança e transformar a forma como se fazem negócios. Num setor imobiliário em constante evolução, Susana Ricardo, CEO & Broker da InvestHome – Mediação Imobiliária, acredita numa liderança feminina que alia visão estratégica, transparência e proximidade. Em entrevista à Business Voice, partilha a sua visão sobre o papel das mulheres na transformação do setor, defendendo um princípio essencial: «uma transparência aliada a uma relação de estreita confiança com o cliente».
Há percursos profissionais que nascem de uma oportunidade e outros que se transformam numa verdadeira paixão. Como é que o setor imobiliário se cruzou na sua vida e o que a levou a construir nele o seu caminho profissional até assumir a liderança da InvestHome?
O ramo imobiliário encontrou-me de forma acidental. A minha formação académica é na área da Gestão, e a minha carreira sempre passou por desempenhar funções de backoffice e de gestão de recursos humanos. Foi com o incentivo de amigos que foi crescendo a curiosidade pelo setor comercial, mais concretamente, pela mediação imobiliária. O que me cativou a abdicar de um salário exigível à data e com valor certo para a incerteza das comissões de imóveis foi a promessa que este setor faz aos seus colaboradores: o teu reconhecimento será proporcional à tua dedicação. O caminho fez-se aprendendo, negócio a negócio, situação a situação, e o know-how foi-se consolidando, culminando na criação da InvestHome, uma agência que priveligia a pessoalidade do negócio e a proximidade com os clientes.
Ser CEO e Broker implica muito mais do que conhecer o mercado ou concretizar negócios: exige visão, capacidade de decisão e a confiança de clientes e equipas. Que princípios considera essenciais na sua forma de liderar e de que maneira a sua identidade enquanto mulher influencia a forma como gere pessoas, desafios e oportunidades?
Acima de tudo, há três pilares fundamentais: a integridade, a clareza e o exemplo. A integridade é crucial em todas as áreas, mas penso que assume ainda relevância maior no Imobiliário: demoramos centenas de processos a conquistar uma credibilidade de mercado e um word of mouth eficaz, e basta um negócio para perdermos isso. Na minha visão, um consultor deve pautar-se pela diligência, pela atenção às especifidades do negócio, mas, sobretudo, à melhor tutela possível dos interesses do cliente. Por outro lado, falo da clareza e do exemplo porque a InvestHome não se esgota em mim. Certifico-me que todos os brokers sabem o caminho por onde devem caminhar e, simultaneamente, ninguém segue um líder que não pratica aquilo que exige.
Não acredito que ser mulher defina a minha competência. Faz parte de quem sou e isso, naturalmente, impacta o meu trabalho sem que eu o perceba. Valorizo muito ouvir o cliente, porque está a tomar uma decisão extremamente importante da sua vida, mas também escutar os meus colaboradores. O desafio é, diariamente, equilibrar a escuta com a firmeza e a capacidade de decisão que ser líder exige.
O setor imobiliário tem vindo a acolher cada vez mais mulheres em funções comerciais, de gestão e de liderança. Como observa esta evolução e considera que o crescimento da presença feminina está também a transformar a cultura, as práticas e a própria forma de fazer negócios neste mercado?
Observo, naturalmente, de uma forma otimista e positiva. No setor imobiliário isso sente-se no dia a dia, pois acredito que somos um setor que está, ativamente, a quebrar estereótipos. Contudo, ainda há muito caminho a percorrer, pois vejo poucas colegas em cargos de gestão e de liderança. Estatisticamente, o setor imobiliário ainda é, na sua grande maioria, liderado e gerido por homens.
Dito isto, com este equilíbrio percentual, o imobiliário tem muito a beneficiar. As equipas tornam-se mais diversas e proporciona-se mais facilmente um espaço para partilha de perspetivas e conhecimento. Também abre portas a discussões extremamente relevantes como a flexibilização da carreira com a vida pessoal, não só das mulheres, mas de todas as pessoas. Comprar ou vender uma casa é uma decisão repleta de momentos emotivos. Um negócio feito por um consultor ou consultora consciente desta diversidade e pluralidade de perspetivas auxilia as famílias, torna-o um negociador mais equilibrado e ajudando-o a construir uma relação de confiança com o cliente.
Num setor tão competitivo, onde a negociação, a credibilidade e a capacidade de criar relações duradouras são determinantes, que características considera diferenciadoras na liderança feminina e como podem estas contribuir para gerar valor, sem que a competência seja definida pelo género?
Antes de tudo, dizer que competência não tem género. Também não é o género que define inerentemente um toolkit de características na liderança. E por isso, acho incorreto, de alguma forma, estar a generalizar as minhas características diferenciadoras de liderança a todas as mulheres que ocupam cargos semelhantes. Vejo em mim, como também vejo em muitos colegas homens, uma ótima capacidade de escuta ativa, uma atenção irrepreensível ao detalhe e uma capacidade inexcedível de gestão emocional de conflitos. A principal missão dos líderes será sempre decifrar as motivações dos comportamentos dos seus colaboradores, atribuir-lhes reconhecimento e validação e, por fim, saber gerir esses mesmos comportamentos. Estas são as competências humanas que qualquer pessoa pode e deve desenvolver.
Apesar dos progressos alcançados, as mulheres continuam a enfrentar desafios na afirmação da sua autoridade e na conquista de posições de maior responsabilidade em alguns contextos profissionais. Que obstáculos identifica no setor imobiliário e o que considera necessário mudar para que o mérito, a competência e a ambição tenham efetivamente as mesmas oportunidades de reconhecimento?
Ainda existe muito caminho a percorrer. Vejo, diariamente, preconceitos subtis e inconscientes relativos a mulheres em cargos de liderança. É, de alguma forma, amargo de se dizer, mas ainda há uma presunção de “facilitismos” no imobiliário com os homens. Uma mulher decisiva e firme em uma negociação pode ser vista como agressiva, enquanto um homem é visto como assertivo e protetor do seu cliente. Para além disto, há problemas sociais muito interessantes de serem explorados, pois, por força da ausência de um salário base e a remuneração estar dependente do volume de negócios, uma gravidez ou uma fase de maior exigência familiar é muito mais penalizadora para uma mulher do que para um homem. O horário flexível é sinónimo de fins de semana a trabalhar, ou finais do dia completamente preenchidos com visitas, alturas em que as dinâmicas familiares e sociais, são mais exigentes. Por outro lado, a mim e às minhas colegas, a nossa profissão implica estarmos diariamente sozinhas com desconhecidos em imóveis, e há, naturalmente, cuidados e pensamentos que temos de ter, que, seguramente, não ocorrem na mesma medida aos homens. Não são raros os comentários sobre a aparência das mulheres, principalmente em cargos de liderança que nunca seriam feitos a um homem.
Isto não se muda de um dia para o outro. As empresas têm que assumir a vanguarda e adotar critérios objetivos de avaliação e progressão, despidos de perceções, estudando simultaneamente modelos em que se garanta a proteção da maternidade e a flexibilização de todos os colaboradores mediante circunstâncias específicas, devendo este de ser um trabalho coletivo, ou seja, de todas as pessoas.
A liderança também se revela na capacidade de identificar talento, abrir portas e criar condições para que outras pessoas possam crescer. Enquanto CEO da InvestHome, que importância atribui à valorização do talento feminino e de que forma procura promover uma cultura de trabalho assente na confiança, na autonomia e no desenvolvimento profissional?
A componente de talent acquisiton está diariamente presente e uma das minhas maiores responsabilidades é criar condições para que os meus consultores e a InvestHome cresçam. Em virtude da minha história pessoal, tenho sempre o cuidado de me certificar que todos os que chegam até mim, homens e mulheres, se sintam empoderados a dar o salto de fé que eu dei no passado. Valorizo objetivamente o talento e não faço distinção entre géneros. Contudo, e, naturalmente, há um trabalho mais regular com as mulheres, que me abordam muitas vezes com mais receio de compromisso com este ramo do que os homens. Quero que toda a minha equipa sinta que confio neles, que os apoio e respeito, mesmo em alturas da vida com decisões difíceis, e, simultaneamente, dando-lhes total liberdade e autonomia para trabalharem à sua maneira, mantendo sempre o meu acompanhamento muito próximo.
Olhando para o futuro do imobiliário, que papel acredita que as mulheres irão desempenhar na transformação do setor e que mensagem gostaria de deixar às mulheres que ambicionam construir uma carreira de sucesso, conquistar posições de liderança ou criar o seu próprio negócio nesta área?
O que desejo é que o papel das mulheres seja de transformação constante do setor, pois é aquilo que pratico todos os dias. Uma transparência aliada a uma relação de estreita confiança com o cliente. Um olhar posto nas vidas dos clientes, vidas essas que irão mudar com o auxílio do profissional e não para o próprio bolso. Uma prática mais humana e atenta às novas formas de viver.
A todas as mulheres que decidam singrar no ramo imobiliário, partam do pressuposto que é inerente a todas vocês as características necessárias para o vosso sucesso. O momento certo será sempre o agora. Rodeiem-se de pessoas que vos inspirem e, no dia em que lá chegarem, façam questão de abrir a porta a quem vem a seguir. Só assim o sucesso faz sentido!