“No final somos todos Iguais”
Em entrevista à Business Voice, Adriana Paiva, Co-fundadora da Enigmind, Responsável por Relações Humanas e Especialista de Formação, assinala o Dia Internacional da Mulher com uma reflexão inspiradora: “O meu percurso não se define num único jogo, mas sim vários. Cada um com as suas regras, ritmos e desafios”, sublinhando a resiliência e a capacidade de adaptação que marcam a liderança feminina.
Se traduzisse num jogo o seu percurso enquanto mulher, como seriam as regras?
O meu percurso não se define num único jogo, mas sim vários. Cada um com as suas regras, ritmos e desafios. Houve fases em que as regras eram complexas, exigindo paciência e aprendizagem, outras mais intuitivas e com desafios inesperados que obrigavam a adaptar-me. Houve jogos de competição, onde reconheci forças e fragilidades, e jogos de equipa, onde aprendi que resultados extraordinários exigem comunicação, tolerância, colaboração e consciência coletiva. Cada contexto pede competências diferentes e obriga-nos a evoluir.
Como Co-Fundadora da Enigmind, trabalha com dinâmicas de grupo, estratégia e tomada de decisão. Acredita que o “jogo profissional” das mulheres tem regras diferentes? Porquê?
Há contextos onde homens e mulheres não competem com as mesmas regras, tornando o “jogo” desigual. Isso traduz-se em diferenças salariais, progressão mais lenta ou exigente para mulheres, e maior escrutínio sobre as suas competências.
É essencial garantir justiça nas normas. Que exemplo dão os jogos? Todos começam com oportunidades iguais, as mecânicas aplicam-se a todos e não há vantagens baseadas na identidade. O sistema recompensa o desempenho: competência, estratégia, consistência, colaboração, capacidade de tomar decisões e gerir recursos. Regras claras orientam comportamentos e garantem confiança. Sem elas, decisões tornam-se arbitrárias e o sistema perde legitimidade.
Entre a lógica dos Serious Games e a profundidade da Psicologia Clínica, que competências associadas ao feminino continuam subvalorizadas no mundo profissional?
Há competências subvalorizadas associadas ao feminino, que são essenciais para a eficácia das organizações:
O pensamento sistémico considera múltiplas variáveis (impacto humano, relações e consequências) e leva a decisões mais equilibradas e soluções completas. A inteligência emocional também é estratégica: promove segurança psicológica e bem-estar, cria condições para que as pessoas contribuam ao máximo. Organizações que incorporam este cuidado fortalecem confiança, colaboração e inovação coletiva. Estas são competências essenciais para quem quer resultados duradouros, relacionamentos sólidos e culturas saudáveis.
Alguma vez sentiu que precisava de escolher entre ser fiel a si mesma ou encaixar num modelo de liderança esperado? O que essa escolha lhe ensinou enquanto mulher e líder?
Sim, houve momentos em que senti essa tensão. Em certos contextos, a liderança priorizava os resultados, desvalorizando abordagens mais emocionais. Uma vez, disseram-me: “Nunca entro num projeto para perder”. Vi isso como compromisso coletivo, “estamos juntos”. Mas depois vi um líder tão focado em objetivos que ignorava meios e valores. Nesse momento, percebi que podia adaptar-me ou manter-me fiel aos meus princípios. Escolhi a segunda opção.
Acredito que liderança não é só atingir metas. Priorizar números sobre respeito e dignidade humana pode gerar ganhos a curto prazo, mas mina confiança e sustentabilidade a longo prazo. Aprendi que saber perder é essencial. O verdadeiro teste da liderança está em gerir tanto o pico (sucesso) como o fundo (derrota), com humildade, resiliência e aprendizagem. Ser mulher e líder é equilibrar ambição com humanidade, desempenho com ética e sucesso com caráter. Essa é uma escolha consciente que faço todos os dias.
No seu trabalho com equipas, que padrões emocionais ou bloqueios encontra com mais frequência nas mulheres e que raramente são verbalizados?
Há mulheres que carregam uma culpa silenciosa associada à ambição profissional, como se fosse incompatível com expetativas sociais.
Também há a perceção de que mulheres são vistas como confiáveis, mas não estratégicas. Pode resultar em silêncios em ambientes maioritariamente masculinos, mesmo quando têm ideias valiosas. O essencial é valorizar profissionais pela sua competência e alinhamento com o papel, garantindo que a pessoa certa está no lugar certo. Quando talento, visão e valores convergem, mulheres e homens podem contribuir plenamente, e a organização beneficia da diversidade de perspetivas e capacidades.
Se este Dia Internacional da Mulher fosse um ponto de viragem e não “apenas” uma data simbólica, que comportamento coletivo gostaria de ver mudar, no imediato?
Para quê gastar tempo em comparações quando no fim, depois de morrer, somos todos iguais. Somos um esqueleto. Às vezes, vale a pena lembrar o fim para escolher melhor o princípio: igualdade.