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“Liderar não é mandar, é Inspirar”

No ano em que o mundo volta a parar para assinalar o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, há histórias que não pedem palco — impõem-no.
Em 2019, nas Caldas da Rainha, nasceu a ConstróiGlobalDecor. Não nasceu apenas uma empresa. Nasceu uma visão. Num setor tradicionalmente exigente e altamente competitivo, Paula Ferreira decidiu fazer diferente: construir com propósito, liderar com consciência e crescer com pessoas.
Fundadora da ConstróiGlobalDecor, Paula Ferreira não romantiza o empreendedorismo, nem suaviza os desafios de ser mulher na liderança. Para ela, liderança não é um título gravado na porta do escritório. É presença. É responsabilidade. É decisão. É exemplo. Como afirma, “liderança não é um cargo, é um compromisso diário com os colaboradores, clientes ou parceiros”.
Nesta entrevista, mais do que falar sobre igualdade, a nossa interlocutora fala sobre impacto. Sobre criar cultura. Sobre transformar obstáculos em estratégia. Sobre provar, todos os dias, que o verdadeiro poder não está na posição que se ocupa, mas na influência positiva que se exerce.
Porque celebrar o Dia Internacional da Mulher é reconhecer conquistas — mas é, acima de tudo, dar voz a mulheres que estão a redesenhar o futuro. E Paula Ferreira está, claramente, a construir o seu.

Quando olha para o seu percurso profissional até aqui, que momentos foram decisivos para se afirmar como líder num setor tradicionalmente dominado por homens como o da construção e reabilitação? 
Um percurso profissional, independentemente do género, constrói-se de escolhas contínuas, decisões que exigem coragem e da capacidade permanente de aprender com as pessoas que caminham connosco. Os marcos decisivos foram aqueles em que percebemos que a liderança não se exerce a partir do topo, mas na base da confiança conquistada, dialogando com quem trabalha ao nosso lado, na humildade de aprender com quem domina a prática, na coragem de assumir decisões difíceis e na serenidade de reconhecer, com humildade, que os colaboradores importam e são importantes. Num setor historicamente masculino, afirmámo-nos pela consistência do trabalho, pelo respeito mútuo, pela confiança e pela capacidade de agregar diferentes competências em torno de um propósito comum. Cada passo foi dado com consciência de que sem as pessoas, não existiria empresa nem futuro para liderar.

Embora o cenário seja atualmente um pouco mais distinto, a verdade é que a construção continua a ser vista como um setor masculino. Em que situações sentiu esse peso de forma mais evidente e que aprendizagens retirou desses desafios? 
A herança de um setor classicamente masculino manifestou-se inicialmente, através de uma subestimação velada onde a legitimidade surgia de fatores alheios à competência e senti-o em reuniões, em processos de decisão, em negociações. Esses desafios ensinaram-nos que a força não reside na reação, mas na persistência com dignidade. A confiança constrói-se com tempo, consistência e, sobretudo, com pessoas alinhadas. São estas que, todos os dias engrandecem o nome da ConstróiGlobalDecor e tornam possível ultrapassar obstáculos, com um trabalho sério e o reconhecimento surge naturalmente. Hoje, olho para esses desafios com gratidão e orgulho. Tornaram-me resiliente, consciente e humana. A grande aprendizagem foi entender que a construção é, ironicamente, um setor carente de humanidade. O desafio de ser mulher permitiu-me trazer a gestão pelo afeto, confiança e proximidade. Para desconstruir o preconceito, não é preciso gritar; basta apresentar resultados que falem por si e mostrar que a dignidade humana prevalece sobre qualquer hierarquia de género. O setor pode ser de pedra, mas as mãos que a moldam são de carne e osso e foi aí que depositei o meu foco.

Ser mulher neste setor obrigou-a, em algum momento, a provar mais do que os outros a sua competência, conhecimento ou autoridade? Como lidou com isso? 
Sim, a exigência de provar é uma constante, embora nem sempre verbalizada. A resposta nunca foi o confronto, mas um investir contínuo no rigor, na preparação e na construção de uma equipa forte, com voz, competente e confiante. Cada colaborador, técnico, administrativo, cada elemento no terreno são parte essencial dessa afirmação, pela admiração mútua e justiça do tratamento a cada um deles. Quando um Cliente vê que o encarregado, o oficial e o servente trabalham com orgulho e em uníssono para um objetivo comum, onde todos nós somos peças fundamentais, a questão do género dissolve-se. Com o tempo, a posição hierárquica deixou de ser questionada e o foco de todas as atenções, passando a ser reconhecida através do trabalho coletivo, da qualidade dos projetos e da solidez humana e financeira inquestionável da ConstróiGlobalDecor.

A criação da ConstróiGlobalDecor, em 2019, surge num contexto exigente. O que a motivou a avançar com o projeto e que visão tinha para a empresa desde o primeiro dia? Sente que hoje conseguiu alcançar esse patamar? 
Em 2019, a motivação não foi apenas o negócio, mas a causa. Queria criar uma estrutura onde as pessoas não fossem apenas números num mapa de pessoal, mas peças cruciais de um puzzle de sucesso. A ConstróiGlobalDecor nasceu da convicção profunda de que, só poderia ser verdadeiramente sustentável, construindo-se internamente, na confiança mútua e responsabilidade partilhada, para depois crescer no mercado. Queria criar uma estrutura onde cada colaborador se sentisse parte integrante do projeto, respeitado, ouvido e valorizado. Hoje, ao olhar para o percurso feito, sentimos que esse patamar foi alcançado. O reconhecimento externo, com a distinção como TOP 5% das Melhores PME de Portugal pelo 5.º ano consecutivo e a solidez financeira de excelência, são reflexo direto do empenho das pessoas que fazem a ConstróiGlobalDecor existir.

Ao longo do crescimento da ConstróiGlobalDecor, que obstáculos específicos enfrentou enquanto mulher empresária e fundadora, e quais considera terem sido as maiores vitórias conquistadas até agora? 
Os obstáculos foram muitos e, muitas vezes, silenciosos, desde a burocracia do setor, ao ceticismo dos parceiros e Clientes até à passagem por conjunturas económicas e sociais muito adversas com que nos deparámos até hoje. Ainda assim, os maiores desafios foram internos: gerir expectativas, equilibrar responsabilidades, manter a coragem quando o caminho parecia incerto. As maiores vitórias? A confiança da minha equipa. A união que construímos. A capacidade de transformar dificuldades em oportunidades e o orgulho de ver este crescimento, não só em números, mas em maturidade, coesão, entreajuda e humanidade. A vitória absoluta é saber que construímos uma empresa onde cada pessoa se sente parte de algo maior e isso não tem preço.

A sua liderança é frequentemente associada a proximidade, visão estratégica e rigor. Acredita que existe uma identidade própria na liderança feminina? Como a define na prática do dia a dia? 
Acredito que a liderança feminina tem uma identidade própria, não por ser melhor, mas por integrar dimensões que, durante muito tempo, foram desvalorizadas: a empatia, a escuta ativa, a capacidade de conciliar firmeza com sensibilidade, assumindo-se assim, uma visão mais abrangente do impacto das decisões. No dia a dia, essa liderança manifesta-se na proximidade com as equipas e na consciência de que cada decisão afeta todos. Implementámos uma liderança de "mãos dadas", significando que cada colaborador sabe que a sua contribuição é vital. Eles são as peças fundamentais que mantêm a estrutura de pé. Na prática, traduz-se em estar presente, conhecer as pessoas pelo nome, compreender que cada colaborador tem uma história, uma motivação e que dão contributo único. Liderar, para mim, é orientar, mas também proteger; é exigir, mas também compreender; é criar um ambiente onde todos se sintam parte do projeto, pois só assim a estratégia ganha vida. Uma liderança real e eficiente é aquela que cuida, inspira e transforma.

De que forma o seu estilo de liderança influencia a cultura interna da empresa, a coesão das equipas e a forma como os projetos são desenvolvidos?
A cultura da ConstróiGlobalDecor é o reflexo da forma como escolhemos trabalhar: com respeito, transparência e espírito de equipa. Cresce quando todos crescem com ela. Escolhi uma liderança baseada na importância de que cada pessoa, que cada contributo é essencial e que o sucesso só existe quando é partilhado, demonstrando que o rigor técnico, a probidade e urbanidade no trato, podem e devem coexistir. As equipas tornam-se coesas quando se sentem valorizadas: os colaboradores sabem que luto por eles e, por isso, lutam pela empresa. Os projetos ganham vida quando são desenvolvidos com sentido de pertença e alma porque há uma consciência coletiva de que estamos a construir algo que nos transcende. Liderança não é um cargo, é um compromisso diário com os colaboradores, clientes ou parceiros. 

A aposta na eficiência energética e na sustentabilidade, através do Programa “Casa Eficiente 2020”, marcou uma nova fase da empresa. Esta preocupação reflete também valores pessoais enquanto mulher e líder?
A aposta na eficiência energética e na sustentabilidade não surgiu como tendência ou estratégia isolada, mas como consequência natural da forma como nos posicionamos perante as pessoas e o futuro. Construir de forma responsável é, acima de tudo, um ato de respeito: por quem habita os espaços, por quem os constrói e por quem herdará o território que hoje se transforma. O Programa “Casa Eficiente 2020” representou uma mudança de paradigma interno, com processos mais rigorosos, equipas preparadas e a consciência acrescida do impacto de cada decisão técnica. Esta transição só foi possível pela base humana sólida, onde o conhecimento é partilhado e as equipas compreendem o sentido do caminho adotado. A sustentabilidade, para nós, é também humana: cuidar das pessoas enquanto se cuida do futuro. Entendo que construir sem consciência é apenas ocupar espaço; construir com sustentabilidade é honrar o tempo e o Planeta.

A entrada no setor das obras públicas, em 2021, representou um novo patamar de exigência. Que desafios estruturais e humanos surgiram nesta transição? 
A entrada no setor das obras públicas foi um marco de grande maturidade organizacional e de elevada exigência. Estruturalmente, implicou reforçar processos internos, criar sistemas de controlo mais rigorosos e garantir níveis elevados de conformidade técnica e administrativa. O maior desafio, foi humano, com a preparação de equipas, para um contexto muito rigoroso, com prazos exigentes e a responsabilidade é coletiva. Todos percebemos que não era só executar obras, mas representar valores e uma identidade empresarial sólida.  Houve um investimento na formação, na comunicação interna e na forte responsabilidade partilhada. O sucesso desta transição deveu-se à resiliência de uma equipa que não se deixou intimidar pela dimensão dos desafios porque, mesmo num projeto de grandes dimensões, o seu esforço continua a ser a peça basilar. 

Num setor onde a tomada de decisão é muitas vezes rápida e pressionada, como equilibra firmeza, empatia e visão estratégica na liderança das equipas? 
O equilíbrio destes elementos vem da clareza de princípios e exige presença, coragem e escutar quem está no terreno. Firmeza é necessária para a segurança do projeto; empatia é essencial para a proteção das pessoas; visão estratégica impede que nos desviemos do essencial. Decidir sem fundamento e empatia é frágil e estéril. Antes de decidir, procuramos entender o impacto humano da decisão. Não trato a minha equipa como engrenagens de uma máquina, mas como colaboradores de um sonho. A visão estratégica diz-nos onde queremos chegar, mas é a empatia que nos garante que chegaremos lá todos juntos.

Ainda existem preconceitos ou resistências quando uma mulher ocupa cargos de decisão na construção. Que mudanças já observa no setor e o que ainda precisa de evoluir? 
As resistências ainda existem. Contudo, observo uma mudança lenta, mas irreversível: a competência começa a sobrepor-se ao género, onde as oportunidades tendem a ser iguais e onde a presença feminina deixa de ser exceção para ser inerente. É preciso evoluir e as organizações deveriam adotar modelos de gestão mais humanos. O setor precisa de entender que a sensibilidade feminina, aliada ao rigor, é uma ferramenta poderosa de gestão de riscos e motivação, para completar a visão do que pode ser a construção moderna: inovação, respeito e valorização das pessoas.

Que papel acredita que empresas lideradas por mulheres podem ter na transformação do setor da construção, tornando-o mais inclusivo, sustentável e inovador? 
As empresas lideradas por mulheres têm o poder de humanizar. Podemos transformar o setor ao provar que a rentabilidade, é perfeitamente compatível com o cuidado e inclusão. Temos um papel vital em dar voz a quem antes era silenciado no estaleiro. Ao sermos inclusivas, atraímos novos talentos, protegemos, inovamos e melhoramos a técnica. Somos a prova de que a liderança pode ser firme, rigorosa e humana, tornando o setor um lugar onde todos, independentemente do género, podem construir o futuro. Com as pessoas no centro, criamos ambientes coesos, responsáveis e preparados. A revolução do setor começa na forma como se cuida de quem constrói.

Neste Dia Internacional da Mulher, que mensagem considera essencial deixar às mulheres que ambicionam liderar, empreender e marcar posição em áreas tradicionalmente masculinas? 
A minha mensagem é: nunca abdiquem da vossa humanidade para caber num molde que não foi feito para vós. Liderar não é mandar; é inspirar. Agrupem pessoas, conquistem a sua confiança e tratem-nas como peças fulcrais. Não vejam números, mas nomes, famílias e sonhos. A construção do futuro depende da nossa coragem de sermos nós próprias. Lutem pela evolução, celebrem cada passo do crescimento e lembrem-se: sem pessoas, não há empresa. Sejam a líder que vós próprias gostariam de ter. Feliz Dia Internacional da Mulher.


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