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“Cuidar da Saúde Psicológica faz parte do tratamento e da recuperação”

No âmbito do Outubro Rosa, a Business Voice esteve à conversa com Jorge Braya, Psicólogo Clínico - Especialista em Psico-Oncologia e Fundador da OncoPsi, para refletir sobre o impacto emocional do cancro e a importância de cuidar da saúde psicológica ao longo da doença. Porque enfrentar um diagnóstico oncológico é também lidar com medos, incertezas e emoções difíceis, o especialista lembra-nos que “Sentir medo, tristeza, revolta ou cansaço não significa que estão a lidar mal com a doença. Significa apenas que estão a passar por uma experiência muito difícil de gerir emocionalmente”. Uma reflexão sobre a importância de acolher as emoções e reconhecer que o apoio psicológico também faz parte do cuidado.

O que esteve na origem da criação da OncoPsi e que necessidades encontrou no acompanhamento de pessoas com doença oncológica?
A OncoPsi é uma clínica online de Psicologia Clínica especializada em Psico-Oncologia. É um espaço seguro e especializado para pessoas com doença oncológica e para quem as acompanha, independentemente do local onde vivem.
Criei a OncoPsi para responder a duas necessidades que tenho identificado no meu percurso clínico. A primeira prende-se com a distância. Quem está em tratamento já passa muito tempo em deslocações e salas de espera, e poder ter consulta a partir de casa representa um alívio importante. O formato online permite também chegar a todo o país e a portugueses que vivem no estrangeiro e procuram acompanhamento na sua língua. A segunda prende-se com o acesso. A consulta de Psico-Oncologia existe sobretudo em contexto hospitalar, onde as equipas desenvolvem um trabalho excelente. No entanto, a procura é elevada e nem sempre é possível dar resposta no momento em que a pessoa mais precisa. E o sofrimento emocional não espera pelo próximo exame nem pela próxima vaga.
Os temas mais frequentes em consulta são a ansiedade associada a exames e resultados, o impacto do diagnóstico, as alterações corporais, a comunicação familiar, o medo da recidiva e a dificuldade em retomar o dia a dia. A OncoPsi acompanha também familiares e cuidadores, que vivem a doença de perto e precisam igualmente de apoio.

Quais são, na sua experiência clínica, os maiores desafios emocionais depois de um diagnóstico de cancro da mama?
O primeiro grande desafio é a incerteza. Após o diagnóstico, surgem muitas perguntas para as quais nem sempre há resposta imediata: o que vai acontecer, como vou reagir aos tratamentos, como vou contar aos meus filhos. A ansiedade é uma das reações emocionais mais frequentes, sobretudo em torno dos exames e resultados, a par do medo, da tristeza, da revolta e da sensação de perda de controlo.
No cancro da mama existe ainda uma dimensão específica, relacionada com o corpo e com a identidade. A cirurgia, a queda do cabelo e outras alterações associadas aos tratamentos podem afetar a forma como a mulher se vê, a sua autoestima e a sua intimidade. Muitas procuram ainda proteger a família do seu próprio medo.
Cada mulher vive este processo de forma única. Por isso, o acompanhamento psicológico deve partir da pessoa e da sua história, e não apenas do diagnóstico.

A saúde psicológica continua a ser pouco valorizada no percurso oncológico? Que lugar deve ter a Psico-Oncologia?
Considero que sim, apesar da evolução dos últimos anos. O sofrimento psicológico continua, por vezes, a ser encarado como secundário, ou como uma reação “normal” à doença que acabará por passar. Em alguns casos, passa. Noutros, mantém-se e tem um impacto real na qualidade de vida, nas relações e na forma como a pessoa vive a doença.
Por isso, a Psico-Oncologia deve integrar o acompanhamento desde o diagnóstico, e não surgir apenas em situações de crise. Uma pessoa não se resume a um diagnóstico: tem uma história, relações e projetos. O Outubro Rosa é uma oportunidade para o recordar. Falar de prevenção e diagnóstico precoce é fundamental, mas é igualmente importante falar de como apoiamos psicologicamente estas mulheres no decorrer da doença.

Como pode o acompanhamento psicológico ajudar a reconstruir a relação com o corpo e com a imagem de si?
Começa por dar espaço ao que se perdeu. Muitas mulheres vivem um verdadeiro luto pelo corpo que tinham antes da doença, e esse luto precisa de ser reconhecido. Não se pode pedir a alguém que aceite um corpo diferente de um dia para o outro.
A partir daí, trabalhamos pensamentos como “já não sou atraente” ou “já não sou a mesma”, e também comportamentos que, sem a pessoa dar por isso, mantêm o sofrimento: evitar o espelho, esconder o corpo ou afastar-se da intimidade. A reaproximação ao corpo faz-se aos poucos e ao ritmo de cada mulher.
Ajudamos também a mulher a perceber que é muito mais do que aquilo que aconteceu ao seu corpo. Os seus valores, as suas relações e os seus projetos continuam a fazer parte de quem ela é. A reconstrução depois de um cancro não é só física, é também emocional.

Porque é importante permitir que o medo e a fragilidade sejam expressos durante o tratamento?
Porque aquilo que sentimos não desaparece por não falarmos sobre isso. Vai-se acumulando e acaba por aparecer de outras formas: cansaço, irritabilidade, dificuldade em dormir ou isolamento.
Há também uma enorme pressão para “ser forte”, e estar sempre nesse papel é muito desgastante. Quando a mulher esconde o que sente, quem está à sua volta não sabe bem como a ajudar. Quando consegue partilhar que tem medo ou que está num dia mau, as pessoas mais próximas percebem do que ela precisa e podem apoiá-la de forma mais verdadeira: ouvi-la, fazer-lhe companhia ou simplesmente estar ali. Isto é especialmente importante com os filhos. As crianças percebem quando alguma coisa mudou, e uma conversa honesta, adequada à idade, costuma tranquilizá-las mais do que o silêncio.
Mostrar fragilidade não é sinal de fraqueza. É reconhecer que se está a passar por algo difícil. E a consulta de Psico-Oncologia pode ser precisamente o lugar onde a mulher não precisa de parecer forte.

Como pode uma mulher recuperar a confiança no futuro sem ficar permanentemente condicionada pelo medo da recidiva?
O fim dos tratamentos é uma fase muito particular. Há alívio, mas também pode haver uma sensação de vazio. À sua volta, espera-se que a mulher volte ao “normal”, como se tudo estivesse resolvido. Mas, emocionalmente, nem sempre é assim. Muitas mulheres referem em consulta que é só nessa altura que começam a perceber tudo o que viveram. Durante os tratamentos estavam focadas em aguentar o dia seguinte e, quando o ritmo abranda, as emoções vêm ao de cima.
O medo da recidiva é muito comum, sobretudo antes dos exames de vigilância. O objetivo não é prometer que vai desaparecer, mas impedir que passe a comandar o dia a dia. Em consulta, ajudamos a distinguir a preocupação útil, que leva a cumprir a vigilância médica, daquela que se torna constante e desgastante. Trabalhamos também hábitos que alimentam a ansiedade, como pesquisar sintomas na internet ou examinar o corpo vezes sem conta.
Por fim, ajudamos a mulher a perceber que a vida não parou com a doença. Continua, agora com um desafio diferente. E a confiança no futuro vai-se construindo à medida que ela volta a dar espaço àquilo que é importante para si.

Que mensagem gostaria de deixar neste Outubro Rosa às mulheres que estão a enfrentar ou já enfrentaram um cancro da mama?
Que não precisam de ser fortes o tempo todo. Sentir medo, tristeza, revolta ou cansaço não significa que estão a lidar mal com a doença. Significa apenas que estão a passar por uma experiência muito difícil de gerir emocionalmente.
Pedir ajuda psicológica não é desistir, é uma forma de cuidar de si. Não é preciso estar em crise para procurar apoio, nem é tarde demais depois dos tratamentos. Cada pessoa tem o seu tempo.
Deixo também uma palavra de apreço a quem está ao lado destas mulheres. Quem acompanha e cuida também se cansa, também tem medo e também não tem de ser forte o tempo todo. O acompanhamento psicológico pode ser uma ajuda importante para estas pessoas. Cuidar da saúde psicológica faz parte do tratamento e da recuperação. E ninguém deveria atravessar uma doença oncológica sozinho.

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