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“Cuidar da Saúde Mental não deve ser algo que fazemos apenas quando chegamos ao limite”


Num tempo marcado pela velocidade, pela pressão e pela necessidade constante de corresponder, falar de Saúde Mental é falar de pessoas — das suas fragilidades, mas também da sua força para recomeçar, pedir ajuda e encontrar novos equilíbrios. À Business Voice, Laura Alho, Diretora Clínica da Think Wise, convida-nos a olhar para a Saúde Mental sem preconceitos e para além dos rótulos, colocando no centro aquilo que verdadeiramente importa: a pessoa, a sua história e o seu bem-estar. Uma conversa sobre consciência, prevenção e transformação, mas também sobre a importância de criar espaço para ouvir aquilo que tantas vezes permanece em silêncio.
Fala-se hoje mais de saúde mental do que nunca, mas continuamos a assistir a níveis elevados de ansiedade, exaustão, solidão e sofrimento psicológico em diferentes fases da vida; enquanto Diretora Clínica da THINK WISE, considera que estamos perante uma verdadeira mudança de mentalidades ou simplesmente perante uma sociedade que aprendeu a falar sobre saúde mental sem ainda saber verdadeiramente cuidar dela?
A meu ver, estamos perante as duas coisas. Houve, de facto, uma mudança de mentalidades: hoje existe maior literacia sobre saúde mental, mais abertura para falar de ansiedade, depressão, burnout ou solidão e menor tendência para interpretar o sofrimento psicológico apenas como uma questão de fraqueza pessoal. Mas falar mais de saúde mental não significa necessariamente cuidar melhor dela. Continuamos a viver num contexto social marcado por pressão de desempenho, precariedade ou insegurança económica, dificuldade em conciliar vida profissional e pessoal, hiperconectividade e isolamento social. Estes fatores podem aumentar ou manter o sofrimento psicológico, mesmo quando existe maior consciência sobre o tema. O desafio agora é passar da conversa para a ação: investir em prevenção, hábitos saudáveis, relações de qualidade e acesso atempado a cuidados psicológicos. Falar de saúde mental foi um passo importante; aprender a cuidar dela é o passo seguinte.

Os jovens cresceram num ambiente onde a exposição, a comparação e a procura de validação fazem parte do quotidiano, enquanto enfrentam simultaneamente pressão académica, expectativas familiares, incerteza profissional e dificuldade em desligar do mundo digital; que impacto está esta realidade a ter no desenvolvimento emocional das novas gerações?
Está a criar um contexto de maior sobrecarga emocional e maior dificuldade em lidar com a frustração e a comparação. A exposição constante às redes sociais pode amplificar a necessidade de validação, a comparação com os outros e a perceção de que nunca se está a fazer o suficiente.
Ao mesmo tempo, estes jovens enfrentam pressões reais — académicas, familiares e profissionais — num contexto de grande incerteza. Isto pode contribuir para um conjunto de problemáticas.
Mas é importante não olhar para esta geração apenas pelo lado negativo. Há também uma maior consciência emocional e uma maior abertura para procurar ajuda. O desafio está em ajudá-los a desenvolver competências para gerir a pressão, estabelecer limites digitais, tolerar a frustração e construir uma autoestima que não dependa exclusivamente da validação externa. E devo acrescentar que o mesmo se aplica para os adultos.

As redes sociais podem criar comunidades, combater o isolamento e democratizar o acesso à informação, mas também podem alimentar comparação, ansiedade, cyberbullying, dependência da aprovação dos outros e uma perceção distorcida da própria vida; onde considera que está hoje a fronteira entre uma utilização saudável das redes sociais e uma utilização que começa a comprometer a saúde mental?
A fronteira não está apenas no número de horas, mas no impacto que as redes sociais têm na vida da pessoa. Uma utilização é tendencialmente saudável quando permite manter relações, aceder a informação e divertir-se sem interferir com o sono, o estudo, o trabalho, o lazer, o contacto com o mundo real ou a autoestima.
Começa a ser preocupante quando existe necessidade constante de validação, comparação excessiva, dificuldade em desligar, ansiedade quando não há acesso ou excesso de utilização apesar das consequências negativas.
Por isso, mais do que demonizar as redes sociais, devemos olhar para a relação que cada pessoa estabelece com elas. O problema começa quando deixamos de usá-las por escolha e sentimos que precisamos delas para regular o nosso bem-estar emocional.

A saúde mental entrou definitivamente no discurso das empresas, das escolas e das instituições, mas muitas vezes a intervenção surge apenas quando alguém já está em sofrimento; considera que Portugal está verdadeiramente a apostar na prevenção ou continuamos a atuar sobretudo quando o problema já se tornou evidente?
Diria que Portugal já reconhece a importância da prevenção, mas ainda não investe nela à escala necessária – infelizmente em nenhum domínio da Psicologia. Há programas nas escolas, nos locais de trabalho e nos cuidados de saúde, mas a resposta continua muitas vezes a ganhar força quando o sofrimento já está instalado e, muitas vezes, sem respostas efetivas em tempo útil.
Os dados mais recentes da OECD mostram que Portugal destinou 2,3% da despesa em saúde à prevenção em 2023, abaixo da média europeia de 4%. 
Por isso, o desafio é passar de uma lógica predominantemente reativa para uma lógica preventiva, identificando fatores de risco e intervindo mais cedo. A evidência mostra que programas de prevenção nas escolas, nos locais de trabalho e nos cuidados de saúde podem reduzir o agravamento dos problemas de saúde mental. Ainda há um longo caminho a percorrer.

Num contexto em que muitas pessoas só procuram ajuda quando o sofrimento já é significativo, o que pode uma empresa ou clínica de psicologia fazer de diferente para promover uma cultura de prevenção e intervenção precoce?
Uma empresa/clínica de psicologia deve estar presente antes de existir uma crise. Isso significa investir em prevenção, literacia em saúde mental, programas de psicoeducação e intervenção precoce, criando formas simples e acessíveis de pedir ajuda. Também significa trabalhar com escolas, empresas e famílias, porque a saúde mental não se cuida apenas dentro do consultório, e ter a possibilidade de disponibilizar serviços com valores mais baixos ou gratuitos para quem tem dificuldades comprovadas. E é exatamente isso que a Think Wise, assumindo diversas frentes e âmbitos de atuação. O nosso papel deve ser ajudar as pessoas a reconhecer sinais de alerta mais cedo e a procurar apoio antes de o sofrimento se tornar incapacitante, mas também dar resposta quando o sofrimento já está instalado.

Portugal tem vindo a reforçar a atenção dada à saúde mental, mas persistem desafios relacionados com o acesso, os recursos disponíveis, os tempos de espera, a literacia e as desigualdades socioeconómicas; na sua perspetiva profissional, qual é atualmente a maior lacuna que precisamos de enfrentar para que a saúde mental deixe de ser uma prioridade apenas no discurso?
Na minha perspetiva, a principal lacuna é transformar a prioridade política e social numa resposta consistente e acessível no terreno. Não basta reconhecer a importância da saúde mental; é preciso garantir que as pessoas conseguem obter ajuda atempadamente, independentemente da sua condição económica ou do local onde vivem.
Isso implica reforçar recursos, reduzir tempos de espera, investir na prevenção e melhorar a literacia em saúde mental. A verdadeira mudança acontece quando o acesso a cuidados deixa de depender da capacidade de cada pessoa para os procurar e pagar.

Existe ainda uma tendência para associar saúde mental exclusivamente à doença, esquecendo que também falamos de relações saudáveis, autoestima, capacidade de lidar com a adversidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e prevenção; considera que deveríamos começar a ensinar competências de saúde mental desde a infância, da mesma forma que ensinamos hábitos de alimentação, higiene ou atividade física?
Sem dúvida! A saúde mental deve ser trabalhada desde a infância, não apenas quando surge um problema. Tal como ensinamos as crianças a cuidar do corpo, devemos ensiná-las a reconhecer, expressar e lidar com as emoções, lidar com os conflitos, pedir ajuda, estabelecer limites e construir relações saudáveis.
Isto não significa transformar as escolas em consultórios de psicologia, mas integrar competências socioemocionais na educação de forma adequada à idade. 
Quanto mais cedo estas competências forem desenvolvidas, maior a capacidade de enfrentar adversidades e menor a probabilidade de encarar o sofrimento como algo que deve ser escondido ou suportado sozinho.

Num mundo marcado pela velocidade, hiperconectividade, pressão para produzir, necessidade de estar permanentemente disponível e dificuldade crescente em simplesmente parar, se pudesse deixar uma única mensagem à sociedade portuguesa neste Dia Mundial da Saúde Mental, qual seria a mudança de comportamento que considera mais urgente?
Diria: aprendermos a parar sem sentir culpa. Vivemos numa cultura que valoriza constantemente a produtividade e a disponibilidade, mas o descanso não é falta de ambição — é uma necessidade para mantermos a saúde física e psicológica.
Precisamos de recuperar a capacidade de estabelecer limites, desligar, estar presentes e pedir ajuda quando necessário. Cuidar da saúde mental não deve ser algo que fazemos apenas quando chegamos ao limite; deve fazer parte da forma como vivemos todos os dias.
No Dia Mundial da Saúde Mental, a minha mensagem seria simples: não espere pelo limite para começar a cuidar de si.

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