“A Intervenção Psicológica é necessária em todos os setores”
A saúde mental deixou de ser um tema periférico para se afirmar como uma prioridade estratégica — social, económica e humana. Na entrevista à Business Voice, Sofia Ramalho, Bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses e Presidente da European Federation of Psychologists Associations, desafia a inércia coletiva e coloca o dedo na ferida: não basta falar, é preciso agir. Entre políticas, organizações e cultura, expõe o que ainda falha e o que já não pode ser adiado. Porque ignorar a saúde mental hoje não é apenas um risco individual — é uma falha estrutural com impacto em toda a sociedade.
A saúde mental deixou de ser um tema silencioso, mas continua muitas vezes a ser um problema invisível. Na sua perspetiva, qual é hoje o verdadeiro estado da saúde mental em Portugal — e estamos realmente a dar-lhe a prioridade que merece nas políticas públicas?
A saúde mental deixou de ser invisível no discurso, com muito menos estigma ou tabu, mas continua invisível na resposta estrutural. Sobretudo quando observamos a falta de investimento em profissionais no terreno, ou a dependência de fundos europeus e a sua sustentabilidade pós-financiamento, problema que se tornará muito mais evidente no final deste ano.
Sabemos que uma parte significativa da população vive com sintomas de ansiedade, depressão ou sofrimento psicológico, dos adolescentes às pessoas mais velhas, com impacto direto no desempenho académico, na produtividade, na coesão social e na qualidade de vida. A falta de acesso generalizado a cuidados de saúde psicológica e os tempos de espera contribuem para o adoecimento das pessoas.
Não estamos, por isso, a dar a prioridade necessária. A saúde mental continua subfinanciada e subintegrada nos sistemas de saúde. São ainda escassos os recursos alocados a cuidados na comunidade e nos cuidados de saúde primários. Isto traduz-se em respostas tardias, muito mais caras e bem menos eficazes. Precisamos de mudar o paradigma e passar a tratar a saúde mental como um investimento estratégico, e não como um custo.
A Ordem dos Psicólogos tem tido um papel cada vez mais ativo no debate público. De que forma a Ordem pode influenciar decisões políticas e estratégicas para que a saúde mental seja tratada como um pilar essencial da saúde pública?
A Ordem tem-se posicionado como uma ponte entre a ciência, a prática e as decisões políticas. Todos os anos apresentamos propostas para o Orçamento do Estado. Produzimos e traduzimos evidência científica em psicologia para políticas públicas, construímos propostas concretas e exequíveis, e procuramos ter uma presença ativa na agenda política e no espaço institucional.
Para além da ciência, há hoje um consenso político crescente, ao mais alto nível na Organização Mundial de Saúde e nas Nações Unidas, de que a saúde mental é central para o desenvolvimento sustentável e para o capital humano. O nosso papel é garantir que a ciência e esse consenso se traduzem em decisões concretas para Portugal. Mais do que sensibilizar, contribuímos para mudar comportamentos e transformar.
Portugal continua a enfrentar desafios estruturais na área da psicologia, desde a integração de profissionais no Serviço Nacional de Saúde até às condições de trabalho. Que mudanças urgentes são necessárias para garantir que os psicólogos possam exercer a sua profissão com impacto real na sociedade?
Primeiro, é urgente reforçar a integração de psicólogos no SNS, especialmente nos cuidados de saúde primários, pois são a porta de entrada principal do sistema. É aí que se ganha real impacto, apostando na prevenção, na intervenção o mais precoce possível, e no acesso atempado de todos aqueles que necessitam de cuidar da sua saúde psicológica.
Segundo, criar condições de carreira e de estabilidade. Não podemos continuar a formar psicólogos, altamente qualificados e especializados, para depois subaproveitar o seu potencial, ou perdê-los para setores mais lucrativos, como é o caso do setor privado ou das empresas.
Terceiro, adotar modelos de intervenção baseados em evidência, e criar condições de monitorização, avaliação e prestação de contas dos resultados em saúde.
Sem estas mudanças, continuaremos a atuar sobretudo na resposta à crise e na remediação, em vez de construir soluções sustentáveis.
Não esqueçamos que a intervenção psicológica é necessária em todos os setores e precisa de condições para uma atuação integrada e intersectorial. Para um impacto real, precisamos de criar condições estruturais para a intervenção dos psicólogos no setor social e de intervenção comunitária, nos contextos de justiça, educativos e organizacionais.
Fala-se cada vez mais em prevenção e não apenas em tratamento. Que medidas de saúde pública deveriam ser implementadas de forma mais consistente para promover o bem-estar psicológico da população antes que os problemas se agravem?
A prevenção é mesmo a decisão mais inteligente e mais viável economicamente. Cerca de metade dos problemas de saúde mental começam antes dos 18 anos. Isto significa que investir na infância e na juventude pode ser decisivo. A Ordem tem vindo a construir e a defender sistematicamente programas universais de literacia em saúde psicológica, intervenção precoce em escolas, universidades e nos cuidados de saúde primários, para além de trazermos propostas para políticas intersectoriais que atuem nos determinantes sociais e comportamentais como o trabalho, a habitação ou a adoção de estilos de vida mais saudáveis. A saúde mental e o bem-estar constroem-se, de facto, muito antes de serem “tratados”.
Escolas, empresas e instituições públicas são hoje ambientes críticos para a saúde mental. Como pode a psicologia contribuir para transformar estes espaços em contextos mais saudáveis, produtivos e humanos?
São os espaços onde as relações e as vidas das pessoas acontecem todos os dias. E a psicologia tem aqui um papel transformador. Por exemplo, nas escolas contribuímos para ecossistemas de aprendizagem mais seguros e inclusivos, promovemos competências socioemocionais em toda a comunidade educativa, tornando as pessoas mais preparadas para relações positivas e para lidar com crises e adversidade.
Nas organizações e empresas, contribuímos para melhorar o desempenho sustentável, com lideranças mais bem preparadas, menos absentismo, mais envolvimento e motivação, maior inovação e produtividade. A saúde psicológica não é apenas uma questão de bem-estar, mas também um fator de competitividade.
Nas instituições públicas, contribuímos para o acesso universal de todos à sua saúde mental e ao desenvolvimento de competências para a vida, procuramos reabilitar, recuperar pessoas e diminuir as desigualdades, e promovemos serviços mais humanizados e mais eficazes.
Em todos estes contextos, a chave é a mesma: sair de uma lógica reativa e passar para uma lógica preventiva e sistémica.
Num mundo marcado por ritmo acelerado, pressão social e transformação digital, que novos desafios psicológicos estão a emergir e para os quais a sociedade portuguesa ainda não está suficientemente preparada?
Estamos a viver uma mudança significativa e estrutural na forma como pensamos, trabalhamos e nos relacionamos.
Deparamo-nos com novos riscos, como a sobrecarga cognitiva e emocional, a solidão ou a desconexão social, a exposição continuada à desinformação, o impacto do digital na atenção e na regulação emocional, e os riscos aumentados de violência, extremismo ou terrorismo. Os riscos associados ao uso excessivo de tecnologia e redes sociais são maiores nos mais jovens, mas não se limitam a estes. Não estamos suficientemente preparados para a velocidade com que estes acontecem, face à nossa capacidade de resposta, seja na regulação emocional e comportamental, na aplicação da ética, ou no desenvolvimento de regulamentação de proteção.
Precisamos de agarrar as oportunidades, e a psicologia tem aqui um papel fundamental no desenho das aplicações com recurso à Inteligência Artificial, com respeito pela ética e pelo valor humano. O desafio não é travar a mudança, mas preparar as pessoas para ela, apoiando a transição social.
Se pudesse lançar hoje uma grande iniciativa nacional para transformar a saúde mental em Portugal, que medida concreta defenderia — e que impacto acredita que poderia ter na vida das pessoas nos próximos 10 anos?
Lançaria um Plano Nacional de Saúde Psicológica, integrado e mensurável, com três pilares:
1. integração plena da saúde mental nos cuidados de saúde primários e na comunidade;
2. investimento massivo em prevenção ao longo de todas as etapas da vida;
3. articulação intersectorial: saúde, educação, justiça, trabalho e proteção social.
Isto representaria a saúde mental em todas as políticas, numa abordagem de “uma só saúde”. Com metas claras ao nível do acesso, tempos de resposta, indicadores de saúde e bem-estar e com estudos de custo-efetividade das intervenções.
Sabemos que investir em saúde mental gera retorno significativo, não apenas em saúde, mas em produtividade, coesão social e desenvolvimento económico. Se fizermos este investimento hoje, daqui por 10 anos teremos uma sociedade mais saudável, mais resiliente e muito mais preparada para o novo futuro.