“A Igualdade de Género constrói-se de forma contínua”
No universo aparentemente técnico dos números, há decisões que mudam destinos. E há Mulheres que transformam relatórios em rumo, balanços em estratégia e fiscalidade em visão de futuro. No Dia Internacional da Mulher, a Business Voice senta-se à conversa com Patrícia Ventura, Fundadora da Taxconsultadoria e Contabilista Certificada, para uma reflexão que vai muito além da contabilidade. Falamos de igualdade de género não como conceito abstrato, mas como prática diária nas organizações. De liderança não como posição hierárquica, mas como responsabilidade e influência. E de literacia financeira não como privilégio técnico, mas como ferramenta essencial de autonomia — especialmente para as mulheres.
Num setor historicamente exigente, onde o rigor convive com a pressão constante da mudança legislativa e económica, Patrícia Ventura construiu uma voz própria: firme, estratégica e orientada para o impacto real nas empresas e nas pessoas. Nesta entrevista, desafia paradigmas, desmonta mitos e coloca a literacia financeira no centro da equação da igualdade. Porque falar de números também é falar de poder. E falar de poder é, inevitavelmente, falar de liderança feminina.
O Dia Internacional da Mulher é mais do que uma data simbólica. Na sua perspetiva, que significado real esta data deve ter hoje para a sociedade e para o mundo empresarial?
Eu vejo o Dia Internacional da Mulher como um momento de reflexão estruturada sobre o papel das mulheres na sociedade e no mundo do trabalho, mas não como um evento isolado no calendário. Para mim, a igualdade de género constrói-se de forma contínua, através de práticas consistentes, decisões informadas e comportamentos responsáveis, e não apenas através de iniciativas pontuais.
No contexto empresarial, esta data deve servir para reforçar a importância de políticas internas que promovam o equilíbrio, a igualdade de oportunidades e o reconhecimento do mérito. Mais do que celebrar um dia específico, é fundamental que as organizações integrem estes princípios na sua cultura e estratégia ao longo de todo o ano.
Ao longo do seu percurso profissional, sentiu que ser mulher representou um desafio acrescido no setor da contabilidade e da consultoria? Que obstáculos considera que ainda persistem?
Ao longo do meu percurso profissional, existiram momentos em que senti a necessidade de demonstrar competências de forma mais reiterada do que outros profissionais em contextos semelhantes. Em Portugal, a contabilidade é uma área com forte representatividade feminina, sendo uma profissão maioritariamente exercida por mulheres.
Contudo, essa presença não se traduz, de forma proporcional, nos cargos de decisão e de liderança. Persistem obstáculos relacionados com estereótipos associados à liderança, bem como dificuldades na conciliação entre a vida profissional e pessoal, fatores que continuam a afetar de forma mais significativa as mulheres.
A contabilidade é uma área tradicionalmente exigente, de elevada responsabilidade e rigor. Que competências das mulheres acredita que fazem a diferença neste setor?
As mulheres evidenciam, frequentemente, competências como organização, rigor, sentido de responsabilidade e atenção ao detalhe, aspetos fundamentais no exercício da profissão contabilística. Para além destas características técnicas, destaco também a elevada capacidade de gestão do tempo, a resiliência perante contextos exigentes e a capacidade de manter o foco sob pressão, qualidades essenciais num setor marcado por prazos, obrigações legais e elevado grau de responsabilidade.
A estas competências juntam-se a empatia, a capacidade de escuta ativa e o compromisso com o acompanhamento contínuo do cliente. Esta combinação entre rigor técnico e sensibilidade relacional permite compreender melhor as necessidades específicas de cada empresa ou profissional, antecipar riscos, propor soluções ajustadas e acompanhar decisões de forma próxima e responsável. Na prática, estas qualidades contribuem para relações de confiança mais sólidas, para uma comunicação mais eficaz e para uma atuação mais estratégica no apoio à gestão e à sustentabilidade dos negócios.
Estas características permitem estabelecer relações de confiança duradouras, essenciais num setor em que as decisões financeiras têm impacto direto na sustentabilidade das organizações e na tomada de decisão estratégica. A capacidade de comunicar informação técnica de forma clara e acessível é igualmente uma competência diferenciadora.
Enquanto Fundadora da Tax Consultadoria, como descreve o seu estilo de liderança e de que forma a sua experiência enquanto mulher influenciou a construção da empresa?
O meu estilo de liderança assenta numa abordagem próxima, responsável e orientada para soluções, valorizando o trabalho em equipa, a transparência e a confiança. Procuro uma liderança prática, baseada em critérios técnicos sólidos, mas também no respeito pelas pessoas e no equilíbrio das relações profissionais.
Acredito que a literacia financeira é um pilar essencial para a autonomia económica e para a tomada de decisões informadas. Nesse sentido, desenvolvo conteúdos de forma regular, nomeadamente através do podcast Contas que Falam, com novos temas semanais, e do blog do site www.taxconsultadoria.pt, com artigos quinzenais. Estes projetos refletem o compromisso da empresa com a divulgação de informação financeira clara, acessível e útil para a sociedade. A minha experiência enquanto mulher influenciou a construção de uma organização assente na proximidade, na clareza e no equilíbrio.
Considera que as empresas portuguesas estão verdadeiramente preparadas para promover a igualdade de género, não apenas no discurso, mas nas decisões estratégicas e nos cargos de liderança?
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, verifica-se ainda uma diferença significativa entre o discurso institucional e a prática efetiva em muitas organizações. A promoção da igualdade de género deve refletir-se em decisões estratégicas, em processos de progressão transparentes e no acesso equilibrado a cargos de liderança.
A valorização do mérito, das competências e do desempenho deve constituir um princípio estruturante da gestão, integrado de forma consistente na cultura organizacional, e não apenas abordado em momentos simbólicos.
Na sua opinião, que impacto tem a independência financeira das mulheres na transformação da sociedade e na forma como estas se posicionam profissionalmente?
A independência financeira assume um papel estruturante na consolidação da autonomia individual, na estabilidade pessoal e na capacidade de decisão das mulheres. Do ponto de vista económico e social, constitui um fator determinante para um posicionamento profissional mais seguro, estratégico e informado, permitindo maior liberdade na definição e reconfiguração de percursos de carreira ao longo do ciclo de vida profissional.
Mulheres com autonomia financeira tendem a investir de forma mais consistente na sua qualificação, a assumir desafios profissionais de maior complexidade e responsabilidade e a participar ativamente nos processos económicos e organizacionais. Este contributo reforça não apenas o seu desenvolvimento individual, mas também a construção de uma sociedade mais equilibrada, inclusiva e sustentável, com maior diversidade nos centros de decisão.
O equilíbrio entre vida pessoal e profissional continua a ser um desafio, sobretudo para as mulheres. Que medidas acredita que as empresas devem adotar para criar ambientes mais justos e inclusivos?
As organizações devem adotar modelos de trabalho flexíveis, assentes em objetivos claros e na avaliação por resultados, em detrimento de modelos exclusivamente baseados na presença física. A promoção de uma cultura de confiança e de respeito pelo tempo pessoal é essencial.
Ambientes de trabalho equilibrados contribuem para níveis mais elevados de motivação, produtividade e compromisso, beneficiando não apenas as mulheres, mas todos os colaboradores.
No domínio da contabilidade e da consultoria fiscal, quais são hoje os principais desafios que as mulheres profissionais enfrentam e como podem preparar-se para um mercado cada vez mais competitivo?
Os principais desafios relacionam-se com a necessidade de atualização técnica permanente, a adaptação às novas tecnologias e a crescente digitalização dos processos contabilísticos e fiscais. Trata-se de um mercado cada vez mais competitivo e exigente.
A preparação passa pela formação contínua, pela especialização, pelo desenvolvimento de competências digitais e analíticas e pela confiança no próprio valor profissional.
Que conselho deixaria às jovens mulheres que ambicionam uma carreira na contabilidade, no empreendedorismo ou na liderança empresarial?
O conselho principal é investir de forma consistente na formação técnica e no desenvolvimento de competências transversais, como a comunicação, a organização e a capacidade de tomada de decisão.
Uma carreira sólida constrói-se com trabalho contínuo, ética profissional, responsabilidade e visão estratégica. É fundamental definir objetivos claros, manter a confiança nas próprias capacidades e não permitir que estereótipos condicionem o percurso profissional.
Para si, o que ainda precisa de mudar — na sociedade e nas empresas — para que o Dia Internacional da Mulher seja celebrado mais como uma conquista alcançada do que como uma luta contínua?
Eu acredito que a igualdade de género não pode continuar a ser encarada como um tema pontual, discutido apenas em momentos específicos, mas deve tornar-se uma prática real e integrada no quotidiano das organizações e da sociedade. Para mim, isso exige mudanças estruturais, culturais e comportamentais, mas também um compromisso pessoal e coletivo mais consciente e consistente.
Quando existir um equilíbrio efetivo nas oportunidades, no reconhecimento e na liderança ao longo de todo o ano, o Dia Internacional da Mulher será celebrado como uma conquista consolidada. Até lá, continuará a ser um lembrete da importância de um compromisso contínuo com a igualdade.